Quando o Estado português precisa de dinheiro para financiar as suas despesas, uma das formas de o obter é emitir Obrigações do Tesouro. Estes instrumentos de dívida pública — conhecidos pela sigla OT — permitem ao Estado captar capital junto de investidores institucionais e, em algumas situações, também do público em geral. Em 2026, as Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV) estão novamente disponíveis para subscritores particulares, tornando-as uma alternativa a ter em conta no leque de opções de poupança e investimento dos portugueses.
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O Que São as Obrigações do Tesouro?
As Obrigações do Tesouro (OT) são títulos de dívida emitidos pela República Portuguesa, geridos pelo IGCP — Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública. Ao adquirir uma OT, o investidor está, na prática, a emprestar dinheiro ao Estado português, em troca do pagamento de juros periódicos (o cupão) e da devolução do capital investido na data de maturidade do título.
As OT têm maturidades que variam tipicamente entre 2 e 30 anos (ou mesmo 50 anos em emissões especiais) e são negociadas principalmente em mercados secundários por investidores institucionais como bancos, seguradoras e fundos de pensões. Para os particulares, o acesso é mais limitado — mas não impossível.
Em 2026, o Estado português prevê emitir cerca de 24 mil milhões de euros em Obrigações do Tesouro (via leilões e sindicatos bancários), no âmbito da sua estratégia de financiamento anual para cobrir as necessidades do Orçamento do Estado e refinanciar a dívida existente.
O Que São as OTRV — Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável?
As OTRV são uma variante das Obrigações do Tesouro especificamente concebida para o investidor particular. Ao contrário das OT clássicas, que têm um cupão fixo, as OTRV têm uma taxa de juro variável, calculada com base na Euribor a 6 meses acrescida de um spread definido no momento da emissão.
As OTRV são emitidas ao valor nominal de 1.000 euros por unidade, o que as torna acessíveis para investidores individuais. O pagamento de juros é semestral. O investidor pode aguardar a maturidade e receber o capital de volta, ou vender as OTRV no mercado secundário antes do prazo, caso precise de liquidez.
Em meados de 2025, o Estado português colocou no mercado de retalho pelo menos 1.000 milhões de euros em OTRV, atraindo interesse significativo de investidores que procuram alternativas aos Certificados de Aforro com rendimento indexado às taxas de mercado.
OT e OTRV vs. Certificados de Aforro: Qual a Diferença?
Uma dúvida frequente é a diferença entre as OTRV e os Certificados de Aforro, uma vez que ambos são instrumentos de poupança emitidos pelo Estado português. As principais diferenças são:
- Certificados de Aforro: Subscrição mínima de 100 euros, taxa variável indexada à Euribor a 3 meses com prémio, capital garantido pelo Estado, sem risco de mercado, sem possibilidade de venda no mercado secundário. Ideal para poupança de longo prazo sem preocupações de volatilidade.
- OTRV: Valor mínimo de 1.000 euros por unidade, taxa variável indexada à Euribor a 6 meses, possibilidade de transacionar no mercado secundário (mas com risco de vender a um preço inferior ao nominal se as condições de mercado forem adversas), pagamento de juros semestral. Mais flexíveis, mas com algum risco de mercado associado.
Para a maioria dos aforradores com montantes mais modestos, os Certificados de Aforro continuam a ser a opção mais simples e segura. As OTRV são mais adequadas para investidores com alguma experiência e que pretendam diversificar a carteira dentro dos produtos de dívida pública portuguesa.
Como Investir em Obrigações do Tesouro: O Que Precisa de Saber
O acesso às OT clássicas por parte dos particulares é feito principalmente através do mercado secundário, onde estes títulos são transacionados após a emissão primária (destinada a investidores institucionais). Para tal, é necessário ter uma conta de títulos num banco ou corretora e adquirir as OT ao preço de mercado, que pode ser superior ou inferior ao valor nominal consoante as condições do mercado.
As OTRV, por seu turno, podem ser subscritas diretamente durante os períodos de emissão, através dos CTT — Correios de Portugal (que funcionam como ponto de subscrição), através da plataforma online do IGCP, ou diretamente nos balcões dos bancos participantes.
Para verificar se há emissões de OTRV abertas para subscrição, o sítio oficial do IGCP (igcp.pt) disponibiliza informação atualizada sobre os produtos de aforro e financiamento disponíveis para o público em geral.
Tributação das Obrigações do Tesouro em Portugal
Os juros (cupões) recebidos pelas OT e OTRV são tributados em Portugal como rendimentos de capitais, à taxa de 28%, sem necessidade de englobamento obrigatório. Para residentes em Portugal, a retenção na fonte é normalmente efetuada pela entidade pagadora. No momento da declaração de IRS anual, os rendimentos devem ser incluídos no Anexo E.
As mais-valias resultantes da venda de OT no mercado secundário são tributadas à taxa de 28%, tal como acontece com outros instrumentos de rendimento fixo. Para os investidores que detenham os títulos até à maturidade e recebam apenas os cupões e o reembolso do capital, o impacto fiscal é mais simples de gerir.
Qual o Risco de Investir em Obrigações do Estado Português?
As OT são consideradas ativos de baixo risco no contexto dos mercados financeiros, uma vez que o risco de incumprimento do Estado português é significativamente inferior ao de uma empresa privada. Em 2026, o rating soberano de Portugal atingiu o nível A (nível de investimento elevado) nas principais agências internacionais, o que reflete a solidez das finanças públicas portuguesas e facilita o acesso ao financiamento a custos mais baixos.
Contudo, tal como acontece com qualquer obrigação, existem riscos a considerar. O principal é o risco de taxa de juro: quando as taxas sobem, o preço das obrigações no mercado secundário tende a descer, o que pode gerar menos-valias para quem vender antes da maturidade. Para quem mantém o investimento até ao prazo, este risco não se materializa.
Existe ainda o risco de inflação: se a inflação for superior à taxa de juro da obrigação, o poder de compra real do investimento pode diminuir ao longo do tempo. As OTRV, por serem de taxa variável, oferecem alguma proteção face a este risco, uma vez que o cupão acompanha a evolução da Euribor.
Vale a Pena Investir em OT ou OTRV em 2026?
Num contexto em que as taxas de juro estão a descer gradualmente após os máximos de 2023, as Obrigações do Tesouro de taxa fixa emitidas há alguns anos oferecem rendimentos acima dos disponíveis hoje no mercado. As OTRV, por serem de taxa variável, acompanham a descida das taxas, mas continuam a oferecer um rendimento indexado à Euribor com garantia do Estado português.
Para investidores que procuram segurança e rendimento estável, as OT e OTRV podem ser uma componente interessante de uma carteira diversificada, a par de Certificados de Aforro, depósitos a prazo ou ETFs. Pode valer a pena considerar a consulta de um consultor financeiro independente para avaliar qual a proporção adequada de cada instrumento face ao seu perfil de risco, horizonte temporal e objetivos de poupança.

