As novas tarifas norte-americanas ameaçam vinho, calçado, cortiça e têxtil — saiba o que está em risco e como as empresas exportadoras se estão a adaptar.
As tarifas Trump sobre os setores exportadores portugueses têm gerado séria preocupação entre empresários, associações sectoriais e economistas desde que a administração norte-americana começou a impor novas taxas alfandegárias sobre produtos europeus. Para Portugal, que exporta para os Estados Unidos produtos como vinho, calçado, cortiça, têxteis e cerâmica, o impacto é real e diferenciado por setor. Segundo estimativas da Faculdade de Economia do Porto, Portugal poderá perder até 370 milhões de euros em exportações e eliminar cerca de 5.500 postos de trabalho num cenário de tarifas mais agravadas.
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O Contexto: Quais São as Tarifas Aplicadas a Portugal
Com a política comercial protecionista do governo Trump, os produtos europeus passaram a estar sujeitos a tarifas alfandegárias adicionais nos EUA. Portugal, como membro da União Europeia, foi abrangido por estas medidas, sendo que a tarifa média aplicada às exportações portuguesas para os EUA subiu para cerca de 9,76% — um valor superior à média de outros países da UE, tornando Portugal um dos países europeus mais afetados em termos proporcionais.
A situação é agravada pelo facto de alguns dos principais produtos de exportação portuguesa para os EUA — como a cortiça e determinados artigos de vestuário — terem perdido isenções tarifárias de que beneficiavam anteriormente. Isto significa que, para estes produtos, o agravamento dos custos de importação no mercado norte-americano é ainda mais pronunciado.
O Setor do Vinho: Entre a Redução de Margens e a Perda de Mercado
O vinho é um dos produtos portugueses com maior presença no mercado norte-americano. O Vinho do Porto, o Vinho Verde, o Alentejo e o Dão têm conquistado consumidores americanos ao longo de anos de trabalho de promoção e posicionamento. Portugal exportou cerca de 36 milhões de euros de Vinho do Porto para os EUA em 2024, e o mercado norte-americano figura entre os cinco principais destinos para as exportações vitivinícolas nacionais.
Com as novas tarifas, as empresas enfrentam uma escolha difícil: absorver o aumento dos custos, reduzindo margens já pressionadas, ou repercutir o aumento no preço final ao consumidor, arriscando perder competitividade face a vinhos de outros países que beneficiem de condições tarifárias mais favoráveis. Segundo responsáveis sectoriais, tem-se verificado um decréscimo de 10% nas exportações de algumas regiões desde o início das tarifas, com sucessivos ajustes de preços a tentar conter a perda de quota de mercado.
O principal temor é que, a prazo, os importadores e distribuidores norte-americanos optem por redirecionar as suas compras para países como o Chile, a Argentina ou a Nova Zelândia, que exportam para os EUA em condições tarifárias distintas.
Calçado, Têxtil e Cerâmica: Setores do Norte com Maior Exposição
O calçado português é internacionalmente reconhecido pela sua qualidade e design, e os EUA são um dos mercados estratégicos para as exportações do setor. As tarifas têm provocado uma quebra significativa: as empresas portuguesas de calçado registaram uma queda de 12,3% nas vendas para os EUA, num total de cerca de 84 milhões de euros, segundo dados recentes das associações do setor.
O Norte de Portugal é particularmente vulnerável, concentrando uma parte significativa da indústria têxtil, de vestuário e de calçado nacional. As empresas desta região dependem em maior medida das exportações para mercados extracomunitários, tornando-as mais sensíveis a qualquer deterioração das condições de acesso.
Os setores dos têxteis e vestuário, do vidro, da cerâmica, do cimento e das bebidas são identificados como os mais ameaçados pelas tarifas norte-americanas, segundo análises da Confederação Empresarial de Portugal. Para estes setores, que competem em segmentos de preço médio, uma subida das taxas alfandegárias traduz-se diretamente em perda de competitividade.
A Cortiça: Um Produto Único com Risco de Perder Isenção
Portugal é o maior produtor mundial de cortiça, responsável por mais de metade da produção global. A cortiça e os seus derivados — desde rolhas a revestimentos e produtos de isolamento — são exportados para todo o mundo, incluindo os EUA, onde têm uma presença significativa, nomeadamente na indústria vinícola californiana.
O problema específico da cortiça está na perda das isenções tarifárias de que beneficiava anteriormente. Este produto tinha um tratamento preferencial que lhe permitia entrar nos EUA com custos alfandegários reduzidos. Com as mudanças introduzidas pela política comercial da administração Trump, essa proteção foi parcialmente eliminada, tornando as exportações portuguesas de cortiça menos competitivas face a alternativas sintéticas ou a produtores de outros países.
Como as Empresas e o Governo Estão a Responder
Face a este cenário, as empresas exportadoras portuguesas têm adotado diversas estratégias de adaptação:
- Diversificação de mercados: reforço da presença em mercados asiáticos, africanos e na própria Europa para compensar a perda de volume nos EUA.
- Subida de gama: posicionamento nos segmentos premium, onde a sensibilidade ao preço é menor e as margens permitem absorver melhor o impacto das tarifas.
- Negociação com importadores: algumas empresas têm partilhado com os seus parceiros norte-americanos o custo adicional, em vez de o repercutirem integralmente no consumidor final.
- Lobbying junto da UE: as associações empresariais têm pressionado Bruxelas para negociar um acordo comercial com Washington que reduza ou elimine estas tarifas.
A Associação Comercial do Porto (ACP) tem sido particularmente ativa na análise e comunicação do impacto destas tarifas, propondo soluções e participando em fóruns europeus sobre a matéria. A questão está também na agenda do Governo português, que tem acompanhado as negociações comerciais entre a UE e os EUA com particular atenção.
Para as empresas que exportam para os EUA, pode valer a pena consultar um especialista em comércio internacional ou em fiscalidade aduaneira para analisar opções de adaptação à nova realidade tarifária.


