A banca portuguesa fechou o ano de 2025 como a mais rentável da Zona Euro, segundo dados publicados pelo Banco de Portugal e confirmados por análises de agências de rating internacionais. Os quatro maiores bancos a operar em Portugal — Caixa Geral de Depósitos (CGD), Banco Comercial Português (BCP), Novo Banco e Santander Totta — registaram em conjunto lucros de cerca de 5.200 milhões de euros, um novo recorde histórico para o setor. Mas o que significa, concretamente, esta performance extraordinária para os clientes e para a economia portuguesa?
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Os Números: Quanto Lucrou Cada Banco em 2025?
Os resultados individuais dos principais bancos portugueses em 2025 foram marcantes:
- Caixa Geral de Depósitos (CGD): Registou os maiores lucros em 150 anos de história, com 1.904 milhões de euros — um crescimento de 10% face a 2024. A CGD, integralmente detida pelo Estado português, tornou-se assim o banco mais lucrativo de Portugal em termos absolutos.
- Banco Comercial Português (BCP): Atingiu igualmente um máximo histórico, com 1.018,6 milhões de euros de lucro líquido, crescendo 12,4% face ao ano anterior.
- Santander Totta: Registou 963,8 milhões de euros de lucro, uma subida ligeira de 0,5% face a 2024.
- BPI (Banco BPI): Foi o único grande banco com resultado inferior ao ano anterior, registando 512 milhões de euros, uma descida de 13%.
Em termos de rentabilidade, Portugal superou todos os países da Zona Euro, com um Return on Equity (ROE) médio de 16%, muito acima da média europeia de 9,88%, de acordo com os dados mais recentes do Banco Central Europeu.
Por Que Razão os Bancos Estão a Lucrar Tanto?
A explicação para os lucros históricos da banca portuguesa assenta em vários fatores que convergiram nos últimos dois anos.
O mais relevante foi a subida das taxas de juro promovida pelo Banco Central Europeu (BCE) entre 2022 e 2024 para combater a inflação. Taxas de juro mais elevadas alargam a margem financeira dos bancos — a diferença entre o que pagam pelos depósitos e o que cobram nos empréstimos. Em Portugal, este efeito foi particularmente acentuado porque grande parte do crédito habitação está indexado à Euribor, que subiu de valores negativos para máximos acima de 4%.
Adicionalmente, a qualidade dos ativos melhorou significativamente: o rácio de crédito malparado (NPL) desceu para mínimos históricos, reduzindo as necessidades de provisões e reforçando os resultados líquidos. A economia portuguesa também cresceu de forma sólida, apoiando a procura de crédito e reduzindo os incumprimentos.
Por fim, os bancos beneficiaram da solidez do rácio de transformação: em Portugal, a relação entre o crédito concedido e os depósitos captados é de apenas 64,4%, um dos mais baixos da Zona Euro, o que confere grande estabilidade ao sistema.
O Que Acontece em 2026? A Rentabilidade Vai Continuar?
Para 2026, as perspetivas são de uma ligeira moderação nos lucros, mas não de uma queda abrupta. Com o BCE a baixar as taxas de juro de forma gradual desde meados de 2024, as margens financeiras dos bancos começaram a comprimir-se. No primeiro trimestre de 2026, os dados preliminares já indicam uma descida da rentabilidade face ao período homólogo de 2025.
A agência de rating DBRS Morningstar considerou que os “resultados sólidos de 2025 garantem tranquilidade à banca portuguesa em 2026”, graças às reservas de capital constituídas e à qualidade da carteira de crédito. Os bancos portugueses continuam a apresentar rácios de capital (CET1) elevados, em torno de 17,9%, muito acima dos mínimos regulatórios exigidos pelo BCE.
O Que Significa Para os Clientes dos Bancos?
A questão que muitos portugueses se colocam é legítima: se os bancos estão a lucrar mais do que nunca, porque é que as condições para os clientes não melhoram proporcionalmente?
Na realidade, o período de taxas altas trouxe efeitos contraditórios para os clientes. Por um lado, quem tem crédito habitação a taxa variável viu a prestação mensal aumentar substancialmente desde 2022. Por outro, quem tem poupanças em depósitos a prazo começou a receber algum rendimento, embora as taxas oferecidas pelos bancos tenham ficado significativamente abaixo da Euribor — o que gerou críticas por parte dos reguladores e dos consumidores.
Em termos de comissões, as principais associações de consumidores têm chamado a atenção para o peso das comissões bancárias no orçamento familiar. O Banco de Portugal tem acompanhado esta matéria e publicado informação comparativa para ajudar os consumidores a escolher as soluções mais adequadas ao seu perfil.
Como Pode o Cliente Beneficiar Desta Situação?
Num contexto de elevada rentabilidade da banca, o cliente bem informado tem mais poder de negociação. Existem algumas medidas práticas que pode tomar:
- Comparar depósitos a prazo: Com a concorrência entre bancos, alguns oferecem taxas mais atrativas, especialmente os bancos digitais. Utilizar plataformas comparativas e o Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal pode ajudar a identificar as melhores opções.
- Negociar o spread do crédito habitação: Especialmente em alturas de refinanciamento ou transferência de crédito, pode ser possível obter condições mais favoráveis.
- Rever as comissões pagas: O Banco de Portugal obriga os bancos a disponibilizar um extrato anual de comissões. Vale a pena consultar este documento e comparar com outras instituições.
- Considerar alternativas de poupança: Certificados de Aforro, OTRV ou ETFs podem complementar ou substituir depósitos a prazo com rendimentos superiores.
Um Setor Mais Sólido é Bom para a Economia?
Uma banca sólida e rentável tem implicações positivas para a economia em geral: permite manter o financiamento às empresas e famílias, reduz o risco sistémico e contribui para a estabilidade financeira do país. Portugal ainda tem na memória a crise bancária de 2014-2016, que custou milhares de milhões de euros ao Estado e aos contribuintes.
Nesse sentido, os lucros recorde da banca em 2025 também representam um sinal de robustez e recuperação face a um passado recente de fragilidade. O desafio para o futuro será garantir que esta solidez se traduz também em condições mais equilibradas para os clientes.
A supervisão do Banco de Portugal e do BCE continuará a ser determinante para assegurar que a rentabilidade da banca não acontece à custa da proteção dos depositantes e dos mutuários.


